Queda de Maduro pressiona regimes aliados e redesenha o equilíbrio político na América Latina

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A derrubada do ditador venezuelano Nicolás Maduro em uma operação militar conduzida pelos Estados Unidos, na madrugada de sábado (3), provocou repercussões imediatas no cenário político da América Latina. Ainda que o governo americano evite caracterizar a ação como parte de uma ofensiva regional contra regimes autoritários, analistas avaliam que a queda de Caracas fragiliza ditaduras historicamente aliadas ao chavismo e altera, ao menos no curto prazo, o equilíbrio político do continente.
Ao longo do fim de semana, declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ampliaram a tensão. Em entrevistas, ele afirmou querer “ajudar o povo de Cuba” e indicou que a situação da ilha “entrará na pauta” do governo americano. As falas foram reforçadas pelo secretário de Estado, Marco Rubio, que classificou o regime cubano como sustentado por lideranças “senis e incompetentes” e afirmou que Havana deveria se preocupar com os próximos passos de Washington.
Embora especialistas ponderem que essas declarações façam parte, em grande medida, de uma retórica política, o impacto simbólico da queda de Maduro é visto como significativo. Ditaduras que encontravam respaldo político, econômico e estratégico na Venezuela passam a enfrentar um cenário de maior isolamento.
Cuba sente o golpe
Entre os regimes mais diretamente afetados está Cuba. A relação entre Havana e Caracas é descrita por analistas como estrutural. Enquanto a Venezuela fornecia petróleo a baixo custo, a ditadura cubana retribuía com o envio de profissionais de saúde, assessores de inteligência e militares, alguns deles responsáveis pela segurança pessoal de Maduro.
Nos meses anteriores à operação americana, o governo cubano já demonstrava preocupação com movimentações militares dos Estados Unidos no Caribe. Em novembro, o chanceler Bruno Rodríguez classificou uma eventual derrubada de Maduro como “extremamente perigosa e irresponsável”, alertando para riscos “incalculáveis” de mortes e instabilidade regional. Segundo autoridades cubanas, 32 cidadãos da ilha, entre militares e agentes de inteligência, morreram durante a ação em território venezuelano.
Para o economista e doutor em Relações Internacionais Igor Lucena, a queda de Maduro não implica, necessariamente, um colapso imediato do regime cubano, mas amplia sua vulnerabilidade. Ele avalia que, mesmo com a saída do líder chavista, o apoio logístico venezuelano à ilha pode continuar no curto prazo, embora em condições mais frágeis. Lucena também descarta, por ora, uma ação militar direta dos Estados Unidos contra Cuba, destacando a ausência de ativos estratégicos que justifiquem uma intervenção.
Colômbia entra no radar
Além de Cuba, a Colômbia passou a figurar com destaque no discurso do presidente americano. No domingo (4), a bordo do Air Force One, Trump citou o país, governado por Gustavo Petro, como possível alvo de novas pressões. O republicano acusou o presidente colombiano de manter estruturas de produção de cocaína e afirmou que Petro “não ficará no poder por muito tempo”. Questionado sobre a possibilidade de uma operação militar, respondeu que a ideia “parece boa”.
O coronel da reserva e analista militar Paulo Roberto da Silva Gomes Filho avalia que, embora seja cedo para prever qualquer ação concreta, é plausível esperar um aumento da pressão diplomática e econômica sobre Bogotá. Segundo ele, a tendência é que Washington utilize sanções e mecanismos políticos antes de qualquer iniciativa militar.
Limites da mudança
Apesar do impacto regional, especialistas alertam que a remoção de um líder não garante, por si só, uma transição democrática. O advogado e especialista em relações internacionais Manuel Furriela destaca que o futuro da Venezuela permanece incerto. Para ele, sem eleições em curto prazo, com regras claras e reconhecimento internacional, o problema central — a permanência de um regime não democrático — pode continuar sob outras formas.
Avaliação semelhante faz o professor e pesquisador de Harvard Vitélio Brustolin, que observa que estruturas autoritárias consolidadas ao longo de décadas não se desmontam apenas com a retirada de um chefe de Estado. Ainda assim, ele admite que a queda de Maduro pode gerar efeitos indiretos, especialmente sobre regimes aliados, como o da Nicarágua, que perdem um importante pilar de sustentação política e estratégica.
Furriela também chama atenção para o fato de que os Estados Unidos não declararam oficialmente a mudança de regime como objetivo da operação. Segundo ele, Washington justificou a ação com base em acusações de envolvimento de Maduro com o narcotráfico internacional e grupos classificados como terroristas.
Ação pontual ou novo recado?
Para o cientista político Gustavo Alves, a captura do líder chavista não configura, necessariamente, uma nova doutrina americana contra ditaduras latino-americanas, mas sim uma ação pontual, cujos desdobramentos ainda estão em aberto. Ele lembra que, no passado, outros países da região enfrentaram acusações semelhantes sem sofrer intervenções diretas.
Já o doutor em Direito Internacional Luiz Augusto Módolo defende cautela diante das justificativas oficiais apresentadas por Washington. Ele avalia que o discurso humanitário nem sempre corresponde à prática da política externa americana, mas admite que o governo dos Estados Unidos pode ter chegado a um limite diante dos efeitos regionais da crise venezuelana, como a migração em massa, o colapso institucional e o avanço do narcotráfico.
Segundo Módolo, a presença crescente de Rússia e China na Venezuela também pesou na decisão americana. Para ele, a ação deve ser interpretada como um recado geopolítico mais amplo. “Os Estados Unidos reafirmaram a Doutrina Monroe, atualizando-a para o século XXI”, avalia, ao destacar que a ofensiva contra Maduro sinaliza uma tentativa de conter a influência de potências rivais na América Latina.
Com informações do jornal Gazeta do Povo
