O trânsito e a Política

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A segurança no trânsito não é apenas uma questão de comportamento individual; é, antes de tudo, uma decisão política. E estas decisões, que são as escolhas feitas nos gabinetes, nos plenários e nas secretarias, que determinam se vamos voltar vivos para casa ou se as estatísticas continuarão manchando de luto as famílias serranas e catarinenses, de forma geral. Quando um governo decide investir – ou não – em fiscalização, educação e infraestrutura viária, ele está, na prática, escolhendo entre preservar vidas ou conviver com a tragédia cotidiana nas ruas e rodovias que cortam nossas cidades. Política pública séria em trânsito não se faz com frases de efeito em rede social, mas com orçamento, planejamento e coragem para enfrentar impopularidades. Cancelar radares em rodovias estaduais que atendem à segurança, para agradar grupos barulhentos, pode até render aplausos virtuais, mas cobra um preço alto lá na frente, em sinistros mais graves na BR282, BR116, SCs e acessos urbanos. Não existe “indústria da multa”; o que temos é uma indústria da imprudência, alimentada pela omissão e pela falta de prioridade para a vida. Quando o poder público renuncia a fiscalizar, entrega nossas estradas ao impulso do “comigo não vai acontecer”, que tantos de nós já vimos se transformar em tragédia.
Também é escolha política tratar a educação para o trânsito como assunto periférico ou como política de Estado aqui em nosso estado. Incluir o tema nas escolas municipais e estaduais, apoiar campanhas permanentes e fortalecer movimentos como o Maio Amarelo, Semana Nacional do Trânsito, são decisões que formam gerações mais conscientes. Não adianta pintar prédios de amarelo em maio e, no restante do ano, cortar recursos da fiscalização, da engenharia de tráfego e das ações de educação para o trânsito. Trânsito seguro se constrói com constância, com ações que sobrevivem a mandatos e interesses eleitorais.
Há ainda a mensagem simbólica da política. Quando, numa sessão especial em defesa do Maio Amarelo na Câmara de Lages, poucos vereadores ocupam suas cadeiras, o recado que chega à sociedade é de que o tema não é prioridade. Por outro lado, quando vereadores, prefeitos e deputados da região encaram os dados, ouvem as famílias enlutadas e se comprometem com metas claras de redução de mortes, ajudam a enxergar o outro por trás do volante, do capacete e da faixa de pedestre. No fim das contas, a segurança viária em Santa Catarina e na Serra é um espelho da nossa maturidade democrática: quanto mais valorizamos a vida nas decisões políticas, mais humano se torna o nosso trânsito.
